Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
Quem sou de novo II
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Agora que vejo a data, creio que pressentia a mudança e contudo, ainda escrevi mais dois textos, um deles quase dois anos depois e esse foi a despedida, pois muito do sentido que as coisas tinham, foi-se perdendo com o tempo e essa é a condição de todas as coisas, que pereçam pois até as ideias apenas vivem enquanto vivermos para as relembrar.
Ás vezes volto aqui, abro os grandes portões e tenho o condão de encontrar um jardim intacto, como se fosse o único local onde o tempo não tem efeito. Creio, que mudou a paz, tudo agora é mais sereno, e isso é signo, de um horto com um só dono.
Sei a ultima vez que cá estiveste, viemos os dois em paz, sem já nada que quiséssemos um do outro, sem ódios nem paixões, sem palavras, mas afinal já nos conhecíamos.
Ás vezes, quando estou em mim e aqui regresso, pergunto tanta coisa, se pensas em mim, se és realmente quem eu julgo, se mudaste muito. Ás vezes penso para mim, que afinal não mudei nada que ainda sou quem era e que quem mudou afinal foi a vida toda á minha volta.
O Mago

Domingo, 3 de Dezembro de 2006
Vou-te contar uma historia

Susana estava ao telefone, Susana vai casar-se, mora em Lisboa, trocou o curso de recursos humanos no Porto pelo de psicologia em Lisboa. Não conheço Susana de parte nenhuma, apenas porque é amiga de Laura e Laura queria vê-la antes do seu retorno a Lisboa.
Susana está ao telefone, chamava-se Luís? Já não me lembro.
Conheci o Rui uns dias mais tarde, numa festa na torreira, o Noivo de Susana. Impressionou-me a personagem. Rui tem poucos estudos, segundo me disse Laura, mas sabe de tudo, explica tudo com muita paciência e doçura. Rui é terno muito carinhoso com Susana.
Luís é um homem casado quarenta e tal anos.
Susana falava ao telefone. Luís é o grande amor de Susana disse-me Laura. A Susana viu-o hoje e resolveu telefonar-lhe. Estava a falar como Luís disse Susana.
Uns dias mais tarde, contou-me Laura, Susana viu o Luís á janela e telefonou-lhe. Luís já era casado quando se conheceram, foi por isso um amor sofrido ainda andava Susana no Porto. Susana pouco vem a Aveiro nestes últimos anos, não sei como se separaram mas suponho que deixaram de se ver há muito tempo.
Estiveram horas ao telefone, Laura contou-me que ele lhe disse “ já não ias gostar de mim se me visses; tenho dois filhos e estou barrigudo”.
Estive a falar com o Luís, disse Susana é o mesmo palerma…
A muito tempo, subi ao lugar mais alto de Portugal e formulei um desejo… pareceu-me ser ali o local adequado para o fazer mais perto do céu. Pedi muitas coisas e um desejo especial: o de te voltar a ver só mais uma vez…
Os anos foram passando e em cada lugar especial onde estive lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti em Gibraltar, desejei estar contigo em Mónaco, disse o teu nome quando agarrei na minha mão a terra do Cairo a mesma terra que trouxe comigo.
Apareceste-me hoje por acaso em fotografias…
Chorei muito, julgava que já não sabia chorar, que me tinha afastado definitivamente de mim… Ainda cá estou afinal. Ainda bem.
Vi a tua vida, vi como estás com quem estás… ainda bem.
Queria que vida nos voltasse a aproximar mas no fundo sei que ficarás ai, penso que encontras-te a tua paz e te voltas-te a apaixonar.
Sabes, talvez eu estivesse errado… Dou o desejo por cumprido, mas faz-me um favor, Sê muito feliz, sê feliz todos os dias da tua vida, Sê tão feliz como eu desejei que fosses.
O-MAGO
Sábado, 9 de Outubro de 2004
ADEUS A UMA CIDADE
Já aqui não pertenço. Aveiro morreu com a tua partida.
Lembro-me bem de te ter escolhido para estudar, do meu belo liceu, dos primeiros dias de aulas, das pessoas diferentes que encontrei, de me ter enquadrado, dos amigos brilhantes que deste.
Lembro-me, de ter ido jogar para Lisboa, do pesadelo do serviço militar na amadora, lembro-me de te ver ao longe pela janela do comboio e de me sentir quase em casa. Senti sempre suave a tua brisa.
Lembro-me da faculdade no Porto e das horas contadas para o regresso, do calor dos amigos, dos cafés, do bar académico, dos dias que se compravam por pouco dinheiro. Dos jardins, dos amores, de dormir noites fora de casa da aura mitológica que granjeei pelas notas no curso de direito de te ter a meus pés.
Não sei como te perdi, sei que pouco a pouco nos fomos afastando e outros tomaram o lugar que era meu reduto.
Lembro-me das primeiras perdas, de chorar na bênção das pastas por cada um que acabava o curso e voltava a casa, dos amores desfeitos, dos ódios que restringiam espaços, da direcção que a vida apontou a cada um de nós.
Agora és uma cidade magoada de recordações, de lugares a onde não quero ir, de jardins a que não vou à anos, de sonhos que se desfizeram.
Fui bem eu que te perdi e agora é imperativo que encontre o meu lugar noutro lado. Talvez um dia eu volte e te pergunte quem és tu de novo
O MAGO
Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004
QUEM SOU EU AGORA

Se me visses ias gostar de mim?
Por estranho que pareça, conto o tempo a partir do último dia que te vi. Assim, se hoje me sentar na areia e fizer um castelo, como faço muitas vezes independentemente de quem olha
deixa lá.
Eu sabia que havia de chegar o dia. Quando era muito novo, perguntava-me, se havia algum mecanismo secreto na vida, que nos fizesse crescer. Penso agora, que são os sonhos não concretizados. Felizmente não eras como os outros, sabias bem que não é a mesma coisa voar com 20 ou com 60 anos e por isso nunca me dirias que não é tarde para sonhar.
Já nem me lembro como era quando te conheci, mudei muito nestes últimos meses. Pouco a pouco fui esgotando a paleta de cores com que costuma colorir a vida
penso que é o que acontece ás pessoas. Mais cedo ou mais tarde acabam-se as cores e a dominante passa a ser a cor real, natural, da vida, das pessoas, do café que se bebe logo pela manha.
Acho que cresci. Apareceram dois ou três cabelos brancos, já faço as grandes viagens que sonhava fazer e sou capaz de enfrentar o que a vida me traga com confiança, olhos nos olhos.
Mas se desses a escolher
Se calhar já não ias gostar de mim. Já não luto tanto para mudar o mundo, luto mais por mim, com mais serenidade e paciência.
Tenho em mim o mito do eterno retorno. Volto aqui porque ainda tenho um sonho por cumprir e esta é a minha montanha magica
e eu não sei viver sem ser assim.
O MAGO
Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2004
PARAMETROS

Ama o outro como a ti mesmo. Grande risco; eu por exemplo oscilo frequentemente nesse amor.
Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2004
O MITO

Tenho em mim o mito do eterno retorno.
Gosto de voltar às coisas, aos lugares, às vidas que fui deixando para trás.
A serenidade do retorno.
Em mim, sei como fluíram os dias de ausência, o rumo que a vida tomou, mas não os teus. Volto à memória do tempo nos lugares.
Mas a memoria restaura contra si mesma, a escrita invisível do tempo, os rumores das ruas reencontradas, de gestos efémeros, rostos ressurrectos, o bulir das folhas no remanescer de curtas primaveras
Reconheço cada lugar cada face pelas marcas que neles deixei; mas não. Antes as marcas que deixaram em mim pela sua presença mais perpétua.
Não pretendo encurtar distancias. Gosto da natureza oculta e do sentido secreto da palavra demora.
Subitamente a saudade do tempo em que não havia mudança. Sou agora eu que reconheço as ausências?
- Havia aqui uma casa. A rua estrita, nas varandas estendidas
Aprecio na mudança o que já não é meu existir pela falta de presença simultânea.
A recordação na ausência tem por efeito, diluir, o que de uma forma ou de outra, são cicatrizes.
Vivo assim perpetuamente entre dois mundos, talvez porque queira moldar o presente por forma a que este se apresente perfeito quando for passado.
O MAGO
Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2004
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A beleza deste blog deve-se a uma amiga, à sua imensa paciência e sabedoria. Muito obrigado.
Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2004
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IN SOLITUDE
O MAGO
Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2004
GOSTO DE...
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Gosto de sorrir, embala-me a alma no torpor da felicidade, gosto de sorrir.
Gosto das palavras brandas, temperadas de amizade e proximidade. De gestos bonitos, de honra, de personalidade, das pessoas que gostam e sabem estar na vida, gosto da paz, da pedra lavrada, esculpida à mão livre pelo tempo.
Gosto das estradas que me levam a algum lugar, mesmo que aí não fique, dos sulcos da face de uma mulher de fazer amor porque é a forma máxima de expressão.
Gosto do riso dos adultos porque é difícil, das caras queimadas do verão da probidade dos adversários, da coragem dos homens que se recusam a vergar à adversidade do vento que enfuna as velas da vida.
Gosto de quem perdoa e abraça, de quem usa o coração para guardar a vida e não a magoa.
Faltei hoje ao prometido, não faz mal. As promessas de tempo esgotam-se no seu decorrer.
Já quase não me lembro da tua cara e a tua magia viveu sempre em mim. Os nossos dias mais não foram que a minha magia reflectida em ti e essa subsistiu mesmo depois de teres partido.
Bem me conheces; faço parte dos erguidos do chão, daquela raça de gente que teima em ser feliz mesmo que para isso tenha que derrotar a vida num combate singular.
Voltei ao meu jardim. Voltei só mas em paz com o sentido do dever cumprido.
Embainho agora a espada. É tempo de voltar a casa.
Hoje foi o meu dia de anos.
O MAGO
O DIA EM QUE MORRERAM OS FILMES DE AMOR

Quando te conheci já namora à 4 anos e penso que também namoravas na altura. O cabelo louro em canudos muito comprido, uma pele muito branca, uns olhos azuis grandes e expressivos e uma sensibilidade que raiava a telepatia. Tinhas uma voz sempre meiga, mesmo quando te zangavas, mas era com o olhar que dizias tudo.
Por essa altura a M era amiga de uma amiga minha, alguém que só entrava na vida das pessoas quando queria e por breves momentos.
Estive muito tempo sem a ver, e só voltei a falar com ela um ano depois quando foi viver para a casa dessa amiga a portas meias com o café onde costumava estudar.
Já não me lembro como começamos. Sei que A estudava fora de Aveiro e fomo-nos aproximando cada vez mais até que numa noite me perguntaste se eu queria namorar contigo. Disse-me que estava a gostar muito de mim e se eu não sentisse o mesmo o melhor era afastarmo-nos para me esquecer. Era assim que agia; quando lhe faltava a coragem fazia das forças fraquezas e forjava uma coragem que a fazia andar para a frente. Mais tarde vim a compreender que nessa forja e bigorna nasce a coragem dos que foram muito magoados.
Namoramos um mês, até meio da semana do enterro do ano (queima das fitas) em Aveiro até que numa noite acabei o namoro. Nesse mês estudei muito pouco. Passávamos horas a falar até o sol nascer num jardim que se via da janela do seu quarto. Trocávamos o imaginário, as dores que não sabia que podiam existir em alguém que eu pensava que tinha tudo.
Ligava-nos a imensa inteligência, cultura e sensibilidade que ambos possuíamos.
Mas eu acabei o namoro, porque não sabia ainda muito bem quem tu eras, porque estava confuso sobre quem gostava e porque namorar contigo era como namorar com todos os sentimentos, cores, e cheiros do mundo, mesclados numa existência que só tu compreendias bem.
Dois dias depois A chegou de Santarém e fomos juntos ao recinto da queima. Naturalmente acabamos por nos encontrar; eu e A, tu e as amigas e amigos que entretanto também já eram meus amigos. Lembro-me do teu olhar
no escuro da tenda dos concertos estava parada a olhar para nós. Separava-me de ti o ódio do teu olhar. Penso que nunca mais vi isso em ninguém.
A semana começou, A foi embora e o meu coração começou a doer.
Sentado no café fazia de conta que estudava enquanto através do vidro olhava para a porta do prédio. Ela deixou de vir ao café. Saia de casa, cumprimentava-me através do vidro e seguia o seu caminho, com a dignidade e o olhar sofrido que só as mulheres e M sabem ter.
Alguns dias depois voltamos a falar e então percebi muito mais de ti.
Percebi a tua humilhação, o desgosto e a tristeza que caiu sobre os teus dias mas as ferias vieram tão depressa que não pudeste perceber a noite dos meus.
Foste para França um mês e eu esperei e desesperei de uma forma que não sabia ser possível. Mas tu vieste, mais magoada, mais distante, com novas cores, cheiros e alfabetos. Sobreveio o dom, o meu dom da segunda oportunidade e um mês depois voltei a ter-te na minha vida.
Sete meses de namoro, de existência crua, verdadeira e sem rede. Quando caminhávamos fazíamo-lo a olhar para cima na linha do amor conscientes de que quem deixava de amar caía.
Caí eu. A começou a namorar e eu senti-me sem forças para te amar. Acabei o namoro, voltei a namorar com A e voltei a destroçar a sensibilidade de quem não o merecia.
Voltamos a estar juntos mais duas ou três vezes depois disso. Numa noite quente de verão, dois meses depois de ter acabado o namoro estivemos juntos num café. Da tua forja veio a coragem para pores fim a tudo para sempre e enquanto falavas choveu gelo. Disse que era o céu a chorar por nós. Começas-te a namorar, eu andei perdido e namorei com muitas pessoas. Acabaste o curso, e voltaste para Lamego. Já lá vão dois? Três anos? Sabes todos os dias desde que te foste embora queria bem saber de ti. Queria saber se és feliz, se encontras-te alguém que não te magoe. Queria saber se a vida te embalou nos braços como mereces e se venceste como estavas destinada. Sonho contigo às vezes e acordo a chorar porque o sonho acabou e ainda que te dê a mão tu não a agarras e deixas que acorde. Sinto a tua tristeza e a minha própria solidão no silêncio que nos separa. Um dia quando estavas triste construí-te um jardim da paz. Fi-lo de palavras sentimentos e carinho enquanto te abraçava no chão do teu quarto. Falei-te do portão por onde entravas, a relva as flores e a agua. Depois deixei-te andar sozinha, mas segui sempre atrás pronto a amparar-te se precisasses. No fundo tinha medo que te perdesses de mim. Agora sou eu que não consigo achar a porta do meu próprio jardim.
O MAGO
Publicado pela primeira vez in bonecos de neve 1-1-2004
Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2004
PORQUE NÃO FUI TRABALHAR HOJE

Porque está um sol de verão embora a temperatura não aqueça ainda.
Porque queria ver a areia, o mar.
Porque não me apetecia ouvir o burburinho da gente.
Porque queria antecipar a alegria do verão.
Porque sou dos poucos que faz o que quer e bem lhe apetece.
Aveiro é uma cidade linda com sol. Com espaço, a cidade estendeu-se como quis, do interior até ás salgadas cercaduras das salinas. Semeada de canais, são as pontes que fazem a unidade.
Aveiro não acorda cedo, brilha pela manha enquanto prepara o dia.
Gosto dos cafés da praia, são acolhedores nesta altura e lembram-me as noites quentes de verão com os amigos.
- Por aqui hoje? O Sr. doutor fez gazeta?
São as minhas boas vindas. Junto ao vidro, disponho as palavras sobre a mesa. Ainda é cedo para estudar. Cheira a café moído e bolos frescos.
Acendo o cigarro na paz da manhã, o jornal sem rugas, imaculados os espaços das palavras cruzadas.
Devia fazer isto mais vezes penso sabe-me bem e sempre ajuda a suportar o Inverno.
Pouco a pouco não fiquei só. Algumas destas caras conheço-as dos verões. Não o suficiente para uma saudação, demoramos o olhar em sinal de reconhecimento. Somos da mesma tribo.
O povo de Aveiro é uma gente muito ligada ao mar. Quando andava no liceu ressentiam-se as aulas com um Fevereiro quente. À boleia ou de bicicleta esvaziávamos as salas e encontrávamos meias turmas nas areias da barra. Pelo cair da noite voltava a horda feliz nas contas das faltas que ainda podia dar.
Mais tarde já na universidade juntava-se o grupo no café para estudar.
- Hoje não vamos à praia, tenho exame amanha queixava-se a Ana Paula.
-Também eu dizia alguém. Nem trouxe nada.
Sempre o Hugo e quem fosse estudar para a praia?
Dois minutos, dividia-se a gente pelos carros e lá íamos em caravana para a sala de estudo do verão.
- Olha, afinal tenho o fato de banho e a toalha no carro. Mas à noite é para estudar.
- Estás louco? À noite há a festa da sagres no farol.
Éramos bons alunos e isso safou-nos muitas vezes.
Devia fazer isto mais vezes; aquece-me a alma.
O MAGO
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2004
OS AMIGOS

Porto. Almoço fora de horas, porque penso a vida dos outros? Nem vos conheço.
Farto de mentiras reconstruí a frase a partir da última palavra.
Serenos menos um, o silencio do trio. O Indistinto, lavra uma composição gasta.
- Que não falta aí é mulheres. Nem se deu ao trabalho de prenunciar o artigo mas espera o efeito das palavras nas fisionomias.
- Tinha-lhe dito que não ia lá. Passei pelo café para comprar tabaco senão tinha ido directo para casa dela.
- Até foi melhor arrisca de novo o indistinto passavas mais uns tempos sem saber.
- Fiquei a olhar nem sabia se era ela ou não. F
que vergonha. Eu estava mesmo a gostar dela.
Mas mortifica-te o quê? A vergonha ou a perda? Não distingo e depois a bravata.
- Conheci na quinta duas gajas de Gaia, vou sair com uma hoje.
Vê-se que ninguém acreditou e ele sabe disso. Devias agora lançar uma frase modesta, não enganavas ninguém mas angariavas a simpatia da dor. Assim ficou cru o silêncio. Mas ele sabe que não pode desviar a conversa. Agora quando fala olham-no os companheiros, ganhou novo interesse depois da mentira. Obtusos, mas cheiram a oportunidade de te conhecer no desamparo, farejaram o embuste e tudo o que disseres agora, serás tu a fugir.
São casado os outros. Por momentos pensaram na igualdade das partes, mas calhava melhor o sucedido ao outro. É mais sólido o vínculo. Também acontece pensa o intestino alto mas é mais sólida a união.
Será por ventura, mas os sinais que não viste são mais evidentes na vida deles, mas tu também não sabes isso, nem sequer agora.
Sobremesa de conversas ligeiras e então voltou ao assunto.
-Detesto a mentira.
Pois claro que detestas. Trouxe-te sofrimento, mas lidas ainda pior com a verdade que te colocaram à vista. Ainda bem que não pudeste escolher.
Concordam os três.
Ainda hoje mentirão se tal for necessário, mas são íntegros agora.
Separaram-se à saída coitado do
está todo lixado comentarão pelo caminho. A pena é o agradecimento inconsciente por não serem eles. Mais à frente, quando cortarem a avenida tornarão a falar. Também que se f
o gajo é um cabrão. Riem.
- No verdadeiro sentido da palavra diz o indistinto. Riem de novo.
O MAGO
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2004
O LIVRO

Este livro foi escrito para falar de ti, para te guardar num livro, preservada dos desgastes da memória
Não é um livro em que tenhamos uma parte favorita. Dos sítios ás palavras, das palavras ás palavras, das palavras aos sentimentos é uma história de sedução contínua, cheia de diálogos suspensos.
Ameaçava ruir de esquecimento, porque o antigo e o novo não são os anos que os medem mas o vazio que os afasta dentro de nós.
Agora reparo; Foi um acto imprudente porque a esperança realizada começa logo outra vez desde o princípio.
O MAGO
Sábado, 24 de Janeiro de 2004
DEDICATORIA

Hoje, hoje mesmo, ainda à pouco quando vasculhava nas prateleiras de um alfarrabista, saltou-me para a mãos este livro.
Folheei-o a partir do meio, li algumas passagens e comprei-o por uma quantia insignificante.
Peguei nele, nesta hora tardia e reparei na dedicatória da segunda contracapa. Reli-a vezes sem conta, voltei ao computador e transcrevo-a fielmente em todas as suas palavras e disposição das frases. Coimbra 22/7/69.
Ainda não tinha nascido.
Porque sublinhei o livro
Caro Vasco
Tão novos que era-mos quando nos conhecemos. Dois caloiros desorientados nas ruas de Coimbra.
Companheiros de quarto, companheiros na faculdade, amigos desde a primeira hora.
Choupal, lapa, olivais, santa cruz. As nossas descobertas, as nossas maravilhas, os poemas que se substituíram ao estudo.
O fim do ano juntos comemorado na praça da republica, o jardim botânico onde estudamos como insanos para passar.
Santa clara, santa clara, a teus pés corre o Mondego.
Tens a mão por cima do meu ombro. Trajamos de estudante com as fitas nos degraus da sé. Já nem me lembro se pagámos a fotografia.
Amanha é a festa de despedida. Seguiremos os nossos caminhos na terra de onde partimos.
Sublinhei passagens do livro para que nunca te esqueças que és um poeta que escreveu em Coimbra, as coisas agradáveis e belas, da natureza e da vida.
Meu amigo Vasco estes foram os anos mais belos da minha vida
Coimbra 22/7/69
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2004
A PERGUNTA

Perguntaram-me hoje se o meu olhar se fixa apenas na tristeza.
A mesa ficou gelada. Demorei a responder.
Sorri ligeiramente; percebi o motejo da tua pergunta. Apaguei bem o cigarro no cinzeiro escolho.
Mal me conheces, não me conheces mas percebo a ironia do tom.
- Talvez.
Paguei, e despedi-me.
È novo o empregado do café. Sotaque brasileiro, ainda não é amigo de ninguém.
Segue com subserviência as palavras dos colegas nos vapores da máquina do café na medida do éter dos licores.
Ainda não sabe o que fazer com as mãos; coloca-as atrás das costas quando se dirige ás pessoas prostrando-se numa semi vénia desgostosa.
Gosto das tuas pausas. Sais ligeiramente do balcão e pregas os olhos nas janelas. Abrandas a infelicidade mas bem vejo que te custa menos o tempo na azáfama.
Ainda há duas horas aqui esteve um casal de estudantes que vejo à dias. Exerceram o silêncio desconfortável de quem acabou um namoro. É maior a infelicidade dele. Levantou-se como quem tinha dito tudo, rasgou a pagina e ele ainda não sabe o poderoso significado disso.
Fez-lhe uma festa, pediu desculpa e foi-se pela porta.
Li-te a face. Pensas como vão ser os teus dias sem ela, o teu retorno ao grupo de amigos e os teus caminhos sós. Sabes que vais sofrer. Está literalmente atordoado pela dor, nem disfarça.
Duas horas depois ela voltou. Espreitou primeiro à janela. Entra aliviada, ele já cá não está.
Sorridente. Estás fixe perguntou alguém. Já nem pensa nisso digo eu.
Bem integrada no grupo, vê-se que apreciam a sua presença ninguém fala dele. Ainda há dias pareciam todos amigos. Protegem-na; está em maioria o feminino.
Café angustia, pago e saio para a noite da rua
A cru, sem a maquilhagem das palavras escolhidas te respondo:
Este foi todo o meu dia
como foi o teu?
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2004
O JARDIM DA PAZ

Imagina um muro, de tijolos pequeninos e vermelhos, encimados de granito poroso.
Conheci-te sempre mais dentro do silêncio. Recordo-me mais da tua tristeza do que da tua alegria, nos teus sorrisos breves.
No centro, bem no meio existem dois portões franqueados, de metal negro, robusto. Entraremos de mãos dadas para que não tenhas medo.
Choravas. Abracei-te, trouxe-te para mim na calma fingida.
Para lá dos portões estende-se um relvado aparado, bordado de cerejeiras brancas e rosas, de flores muito abertas vertendo o perfume na terra.
Veio do lado esquerdo, de onde o sol descansava, uma escada talhada, cingida por aceres vermelhos e camélias, prolongando-se num varandim de patamar.
Senti a tua harmonia quando te aconchegaste no meu peito.
Em cima, uma cascata marulha suavemente para o lago, alisando a pedra dos muretes que o bordejam. Em alguns locais oculta-se a pedra por uma cortina de heras que escore até a agua, pintada a espaços pelo lilás das madressilvas e o escarlate das azaléias.
Sobrepuseste um silêncio ao anterior no profundo azul do teu olhar.
Deixei-te ficar por ali. Disseste-me depois que te sentas-te mesmo à beira. Seguias o grande giro das aves que mergulhavam no cristalino para mais tarde emergir num fragor surdo da espuma, de pescoço tenso, asas estendidas e olhos muito abertos adejando em direcção ao sol.
Por entre as lajes crescem ervas finas. Na outra margem do lago está uma ponte e a agua que ali corre é mais serena.
Irás atravessa-la quando este lugar já não te trouxer paz. Provavelmente já não estarei a teu lado mas saberás fazer o caminho. Para lá estarão as ruas de ouro, os mares de cristal, os palácios de jade que tingem o céu.
Apertas-te as minhas mãos na tua. Já dormias.
Irás atravessa-la quando este lugar já não te trouxer paz. Uns apenas gastam horas, outros a eternidade.
O MAGO
Sábado, 17 de Janeiro de 2004
MEMORIA DO TEMPO

Os dias que passaram gastei-os na senda do tempo.
Estou sentado nos degraus do jardim voltado para a cidade.
-Faz já muito tempo? Penso que sim
senti o Outono nas árvores nuas e o Inverno na face que chorou. Vieram unos a primavera e o verão. Não lhes distingui os contornos.
Vi a agua escurecer e de novo o Outono cravou o arado e semeou as terras de Inverno.
- Já aqui estou à muito tempo. Doem-me as feridas e não me mexo.
- O tempo
digo eu.
- O tempo o quê?
- O tempo repito eu, agora mais baixo.
E a esse sucedeu um novo Inverno, fino, prateado, traçado no céu, obscurecendo a silhueta da folhagem leve das árvores.
Passaram três anos desde que me sentei e esperei que o tempo curasse as feridas.
-Foi o meu ultimo recurso.
O teu ultimo recurso? Mas nunca foste pessoa de esperar e as feridas ainda aí estão. Bem as vejo.
- Pois estão. Ninguém me disse...
-À dois meses estiveste no Porto com o teu pai. Ele procurava a casa da Dulce o velho amor da vida passada e não suspeitas-te? Número 8 era isso?
- Fiquei surpreendido com a quantidade de coisas que ele sabia da vida dela. Evitei olha-lo. Não precisava. Sentia que se ela tivesse saído de casa naquele momento o coração teria disparado.
No canto da minha biblioteca está um relógio que recupera as horas. Faltou-lhe as pilhas à dias, e quando as mudei o mecanismo inverteu a marcha dos ponteiros.
- Mas sabes agora?
- Sei distinguir as feridas. Algumas são demasiado profundas e o tempo não as cura; ensina-nos a viver com elas.
Na prateleira, entre os livros está um relógio que regressa ao fim do tempo, decerto pela ansiedade do meu pedido.
-Mas ninguém me disse
e depois se as marcas tivessem desaparecido como faria eu retornar à vida o que ninguém conhece, o que ninguém recorda.
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2004
ET IN ARCADIA EGO
Gostava de enterrar algo de precioso em todos os lugares onde fui feliz, para que um dia já velha, feia e infeliz, pudesse voltar, desenterra-lo e recordar.
Meditei nas palavras enquanto te fixava.
Estive hoje nesse lugar, sentado na relva como fizemos à quatro anos atrás, mas tu faltas-te ao encontro. Bem sei, não combinamos nada, mas eu
Escolhe uma árvore. Frágil como tu, escolheste-a. Não tinha mais nada para te dar senão o que não era meu. Dei-te uma árvore do jardim com a mesma impotência que alguém dá a luz do sol.
Chorei para equilibrar a minha desorientação na memória da minha pequena magia nos teus dias. Quis separar-me de ti em harmonia.
Fechei uma porta, a porta baixa na vida que procurei e encontrei em ti. Se a abrisse agora não encontraria nenhum jardim encantado.
Deixei atrás de mim a juventude, a adolescência, o romance, a magia de todas as coisas. Na base da tua árvore enterrei enquanto chorava o compêndio de jovem mágico, o bonito compartimento onde a varinha de ébano tinha o seu lugar ao lado das ilusórias bolas de bilhar, a moeda que se dobrava em duas, e as plumas que se podiam meter num veleiro. Algo de precioso, mas eu não voltarei.
O MAGO
Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2004
O SENHOR DAS CAUSAS

Agora que falas nisso
fiz o mundo à minha medida.
Lembro-me bem das guerras em que me metia, cheio de medo. Lembro-me bem
Recordo-me de olhar para o quarteto que brincava na entrada da escola primária. Sei que ficava a vê-los
queria tanto brincar com vocês. A Susana tão linda que fazia doer o meu pequenino coração, a Lúcia, o Miguel e o Nuno. Na velha Cacia rural, mesmo às portas de Aveiro brincava um menino com outros meninos muito pobres porque não o deixavam brincar na entrada da escola primária. Por entre os dias da primária o Miguel veio a ser o meu melhor amigo e um dia deixaram-me brincar com eles. Durou cinco? Dez minutos? Fui para casa e dei a notícia à família. - Brinquei com a Susana e com a Lúcia e
Não perceberam nada pois não? Tinha 6 anos e sabia que vocês não sabiam do que eu estava a falar, mas eu não podia explicar que as roupas que vestia não eram bem vindas naquele grupo. Não sei quanto tempo foi, mas sei que em pouco tempo levei outros para brincar, para que não sofressem o que eu tinha sofrido e no fim do ano brincávamos todos juntos. Na quarta classe mudei de casa, de escola e voltei a ter que lutar por brincar. Lembro-me do ciclo em esgueira, e em Ílhavo para onde me mudei 2 anos depois. Em Ílhavo havia menos clivagens mas as guerras eram mais surdas e o ódio mais intenso. Terra de famílias antigas e historias idosas. Aí comecei a descobrir a amizade das mulheres. Por alguma razão eu atraía a confiança e o carinho das conversas femininas. O meu primeiro namoro, o meu primeiro dia dos namorados com alguém, a primeira namorada apresentada aos pais. A guerra que eu te dei ó terra. Irritava-me os teus dogmas, a mesquinhes e cobardia das tuas gentes, o teu confinamento. Odiei as coragens colectivas, a tua pequenez porque esse nunca foi o meu lugar. Uns dias depois de acabar o namoro tentava convencer-te a voltar a namorar comigo. Lembro-me dos teus olhos muito verdes, eras linda. Ao fundo um grupo de rapazes de anos mais avançados batiam num rapazito da nossa turma. Meu deus, eu era tão pequeno à beira deles, que fui eu ali fazer. Cansado de esgrimir argumentos contigo levantei-me e fui busca-lo. Valeu-me a surpresa que causei brutamontes. Perdi-te nesse momento mas ganhei o teu respeito; vi isso nos teus olhos. Não voltamos a namorar, eu vim estudar para Aveiro e encontrei o meu lugar. Agora que falas nisso
não mudei muito pois não? Continuo a lutar por tudo. Sou o homem do direito, dos sindicatos dos ideais. Disseste-me que as pessoas esquecem depressa quem por elas luta. Cada um luta por si a determinada altura. Bem sei. Sempre o soube mas fui sempre eu a escolher lutar não fui? Agora que falas nisso
O MAGO
Terça-feira, 13 de Janeiro de 2004
APETECIA-ME
Apetecia-me apaixonar-me. Uma daquelas paixões fulminantes, que cravam o sorriso na duração de uma vida. Apetecia-me escrever cartas de amor, sonhar o corpo, o abraço a fusão. Apetece-me o amor perfeito, a união das individualidades marcadas, a construção das bases delapidadas, a argamassa do sangue, da transpiração do querer porque se sente mais forte que a vida. Hoje, só por hoje, apetecia-me nem que fosse o engano de mim na vida de outrem, ainda que amanha o finda-se. Visitaram-me hoje alguns fantasmas do passado. Alguns de tão próximo quase pertencem ao presente. Trá-los pela mão a minha solidão. Um dia já com vinte e tal anos escrevi e afixei no meu quarto uma folha onde constavam os motivos pelos quais tinha acabado o namoro com M, para não me trair. Meia mentira, e a solidão tem um alento crescente, corrosivo e dominador. Lembro-me de como entras-te na minha vida; suave, muito suavemente. Conquistas-te o meu imaginário, o meu sentir. Araste as montanhas que eram minhas e plantaste palavras violetas que falavam do azul e delas brotavam vermelhas que falavam do verde e das verdes emanava o fragrância rosa, que se misturou com o laranja emanado das palavras castanhas que brotaram do prateado que
O verdadeiro problema de acabar namoros é a culpa. Quem o acaba fica sempre de algum modo num plano mais elevado, porque impôs um não e este, tem sempre mais força do que a afirmativa. Custa-me lidar com o rancor da contraparte e por isso afasto-me, desapareço e arco sozinho com o termo, com a culpa e o ónus de voltar a construir. Custa-me a separação das coisas, dos afectos nelas incorporadas. Penso que tracei desde muito cedo os meus ideais românticos pelo inverso do romantismo que via. Lembro-me um dia
Tinha 7 anos e estava a passar ferias em Lisboa. Na feira do relógio um homem fazia o jogo da vermelhinha com três cartas. O casal aproximou-se, o homem puxou-lhe pela mão e ficaram a ver. Houve alguém que ganhou 3 contos e ele decidiu-se também a tentar a sorte. Apostou mil escudos, ganhou dois e o frenesim subiu. Perdeu os cinco que trazia no bolso da camisa cor-de-rosa e pediu-lhe dinheiro. Dividia-se a gente à volta; uma aldrabice, aposta que é desta. Penso, que quando ela lhe deu os dez contos já estava a chorar e por momentos vi o homem das cartas tremer. Mas ele não podia parar. Se negasse a aposta diria a todos que as possibilidades de ganhar eram nenhumas. Ele apostou e perdeu e num reflexo de dor tentou apanhar o dinheiro da mesa. Alguém o agarrou. Ela
abraçou-o e enquanto o afastava do ridículo da maralha fez-lhe uma festa na face. Chorava. Vamos embora Rogério já não temos dinheiro para comprar nada. Afastaram-se. No braço esquerdo pendia uma alcofa vazia. Já lá vão vinte e três anos, mas o gesto daquela mulher contou-me uma história de amor. Apetecia-me
O MAGO
Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2004
RECORDAÇÕES

Disse-me um dia a Guida:
- Lembro-me das coisas pela sua estética.
A Guida é a minha melhor amiga, a mulher perfeita e acabada. Cinco anos mais nova que eu, a Guida é uma monstruosidade de inteligência reflexão e sensibilidade. Quem a conhece perde-se de amores e sonhos.
- Recordo as coisas pela composição da cena. Não me lembro das expressões, tão pouco dos sentimentos, mas da posição que as coisas e as pessoas ocupavam.
Penso que a Guida é o sonho dos homens. Lindíssima, cabelos negros e umas sardas que riem com ela.
Conhecemo-nos há muitos anos do grupo de amigos, numa amizade ligeira e bem disposta e foi alguns anos depois, numa noite de grupo que nos voltamos a conhecer. Uma irritação mal disfarçada e eu apanhei-te. Calhou estar a olhar para ti e num segundo vi-te a alma.
Levantou as guardas, mas continuou porque não se sentia ameaçada. A nossa amizade nasce daí.
À nossa volta existe um respeito mítico. Quando estamos juntos, ninguém nos incomoda, nem sequer os namorados. A Guida está a falar com o Paulo. Encolhem os ombros e afastam-se.
Muitas vezes me impressionou a quase diametralidade de quem somos. O oposto.
Partilhamos a mesma correcção de princípios, a verticalidade dos poucos valores que temos, a dedicação de uma vida ao adivinhar o que os outros pensam, o sonho de ser feliz e a medonha inteligência.
Não nos une por isso o inverso das nossas existências, mas os valores que partilhamos.
A tua amada noite e o meu radiante sol são apenas questões de gosto e esse não se mede nem litiga.
- Recordo-me das coisas pelos sentimentos disse-lhe eu. Não sei se o céu estava azul e relva muito ou pouco verde. Lembro-me dos sentimentos que emanavam.
Guida, sei agora porque me basta olhar para alguém para saber o que pensa. Eu deixei de as ver, sinto-as.
Por isso não me incomoda a mentira, porque por detrás dela estão sentimentos de medo de frustração, ou sonho. Incomoda-me mais a verdade dos que não sentem e não sonham com a verdade que querem que venha a ser aquela mentira.
O Mago
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2004
A SOLIDãO DOS DIAS
Por algum motivo incomoda-me a solidão dos outros, mas não a minha. Bem a meio do restaurante, encostado à parede jantava um homem sozinho. Magro e fora de moda, jantava um homem sozinho. Comia com pressa sem levantar os olhos como o hábito o ensinou. Podes ser tanta coisa, mas eu vejo um homem só. Podes estar só de passagem por aqui, ter uma família à tua espera e eu só vejo a solidão que partilha contigo o jantar. Presumo que a tua expressão seja bem diferente da minha, mas eu também não tenho ninguém à minha espera. Uma vez, num jantar de natal oferecido pela câmara de Aveiro aos funcionários ouvi na mesa ao lado a conversa de três homens que combinavam o jantar de natal entre eles. Conhecia um. Imaginei uma cozinha pequena, móveis desgastados e três homens sem família. Combinavam couves e bacalhau. O homem habitua-se à solidão, aceita-a com resignação. A mulher aceita-a menos usando de maiores recursos para a afastar. Todavia identifico-a bem melhor nos olhos de uma mulher. Não me incomoda a solidão porque andei sempre só. Podemos ter amigos, amores, família. Podemos ver o mar, o sol e as nuvens. Podemos falar, brincar e rir e mesmos assim estarmos sós. Homem quem jantas sozinho, eu tive muitos amores, família e amigos mas estou mais só do que tu porque existi sempre na minha solidão. Escolhi-a eu. Mas incomodam-me as pessoas sós, aqueles que o são, sem escolherem. Vi-te sair e num acto inconsciente segui-te. Caminhas agora sem pressa de chegar a um lugar onde te sintas mais só. Abrigas as mãos do frio e baixas a cabeça a quem passa com medo que te leiam o olhar. vi-te entrar em casa, sei onde moras e eu
segui o meu cominho só O MAGO
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2004
A BIBLIOTECA DA VIDA
Li bibliotecas. Durante anos li milhares de livros. Digam o nome e eu já li. Descobri autores que nunca ninguém tinha ouvido falar e maravilhei-me com a obra. Lembro-me de ler a traduções inglesas de autores que só foram traduzidos para português alguns anos depois, quando ganharam o prémio Nobel. Dizem que ler é bom. Para quê ainda não descobri. Tenho um curso feito com as melhores notas da universidade, uma letra horrível e dou imensos erros salvos pelo corrector do Word. Lembro-me do dia em que anunciei à minha família que ia deixar de ler pois não prestava para nada. Boquiabertos lá desenharam meia dúzia de prós no gume da faca da inconsciência do assunto. Mais importante que ler é viver. A inutilidade de se ler sobre o amor quem nunca amou, a leviandade da leitura de guerras em que nunca participamos e todas as outras inutilidades. Porque
era inverosímil este comportamento ou aquela atitude da personagem. Faria pois sentido que Tim qualquer coisa agisse com tamanha determinação, ou crueldade. Se lhe faltava a humanidade era porque não passava de uma mera personagem de ficção. Podia lá acontecer que num diário de viagem acontecessem tantas contingências a uma só pessoa e logo a pessoa mais propensa a passar isso para o papel. Aos 18 anos nunca tinha lido o senhor dos anéis, mas já tinha estado ao lado de John Steinbeck nas vinhas da ira, acompanhado Hemingway na festa brava e nos safaris por africa, velejado com Somerset Maugham. Ganhei o prémio Nobel com Irvig wallace dormi em masuria e fiz da leitura o meu refugio da realidade. Dez anos depois reconheço que me faltava a experiência da vida. Descobri a crueldade intemporal dos homens refinada nos nossos dias. Descobri a fome na faculdade, descobri o que era poupar para dar prendas a quem se ama, descobri o trabalho pesado dos carregadores para viver. Descobri os caminhos serenos e tortuosos do amor, as tempestades dos dias o cetim sedoso da noite. Mas nada disso existiu autonomamente. Mesclei cada mundo que descobria de mim. Impus-lhe a minha existência de ruas de ouro e mares de cristal. Salvei o que podia ser salvo e colori o que não podia. Por isso voltei a ler
O MAGO
A Lenda
Porque vens visitar-me? Enquanto remexia nuns papéis surgiu o teu retrato num vazio de mim e imediatamente ocupou todo o espaço. Eram os teus anos. Mas eu conheci-te no espaço real longe do irreal em que apareces. Mandei-te embora tantas vezes
e tu foste. - Pessoas como tu dão muito trabalho -disseste-me. Pois dão mas
Da janela do teu quarto víamos um jardim insuspeito. Como estás tu agora? Meu deus como temo esta resposta. Estarás casada, feliz. Podia saber mas não quero, logo eu que parecia ter a poção da coragem. Sei quem sabe, mas não pergunto. Sei o teu telefone e não falo. Tenho tanto medo. Já não vou ao palácio. Faltei à minha promessa de esperar no fundo da rua. Mas magoa-me tanto ver a varanda do teu quarto. Mesmo depois de ires embora ficava a olhar na esperança de te ver. Já não podia mais, estava a destruir-me. Dou agora conta, mesmo agora, que já não vou aos lugares onde estivemos.
Meu deus como estarás tu?
O MAGO
CARTA MAIOR
NESTA MONTANHA DESCANSAREI. RODEEI-ME DE SORTILEGIOS E ENCANTAMENTOS. NESTA MONTANHA DESCANSAREI.